domingo, 22 de novembro de 2009

Intertextualidade

Em 1989, numa sala de aula do Lyceu Paraibano, eu lia pela primeira vez Apelo, de Dalton Trevisan. Como tantos outros, o conto me fora apresentado por Lourdinha, na época minha professora de português e literatura. Hoje, uma amiga muitíssimo querida.
Nunca esqueci a profundidade desse conto. Ao longo de todos esses anos, entre leitura e releituras, é inevitável não me sentir tocada pela sensação de desamparo que o texto provoca. Sem dúvida, um dos mais belos que já li.
Mais recentemente, tenho me deliciado com a voz macia de Nara Leão. É como deitar a alma na rede e deixá-la livre para embalar-se no ritmo da mais pura suavidade.
Foi num desses momentos, ouvindo a interpretação Por Causa de Você, composição de Dolores Duran e Tom Jobim, que um apelo se fez em minha memória.
Essa, Freud nem precisa explicar.


(VaneideDelmiro)



APELO (Dalton Trevisan)

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.


Por Causa de Você (D. Duran / T. Jobim)

Ah, você está vendo só / Do jeito que eu fiquei / E que tudo ficou / Uma tristeza tão grande / Nas coisas mais simples / Que você tocou / A nossa casa querida / Já estava acostumada / Guardando você / As flores na janela / Sorriam, cantavam / Por causa de você / Olhe meu bem nunca mais / Nos deixe por favor / Somos a vida e o sonho / Nos somos o amor / Entre meu bem por favor / Não deixe o mundo mau levá-la outra vez / Me abrace simplesmente / Não fale, não lembre / Não chore meu bem

3 comentários:

Anônimo disse...

PARABÉNS! Isso é que é intertextualidade. Quando vc se sentir "desamparada" lembre-se que em algum lugar do universo tem alguém lembrando de vc! ADOREI...

Abraços,
Marcelo Cavalcanti

Clayton disse...

o ar desse post foi tão cálido
q medeu uma inveja boa!
engraçdo: a vefcação de palavra prau pdr cometar foi: places!
itertextualidade!

Marcantonio disse...

AH! Sim, esse pequeno conto, essa pequena obra-prima, lembro-me de tê-lo lido, em pé, desavisadamente, numa tarde de mornas procuras. De tão comovido, sentei-me no chão para relê-lo três vezes. A mais sintética e bela visão do desamparo. Obrigado pela oportunidade de reencontrá-lo nesta outra tarde de mornas buscas.

Marcantonio

http://cadernosdearte.wordpress.com