
"(...) a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é."
(Guimarães Rosa - Grande Sertão: veredas / Arte: P. Picasso)
Não acreditasse na força das palavras, eu mesma me arrepiaria com o que o que hoje seria capaz de escrever sobre raiva, mágoa, culpa, rejeição e desafetos do gênero.
Definitivamente, não me assusta a possibilidade de escrever a respeito, mas sim a dureza com a qual poderia fazê-lo, o que talvez me trouxesse sentimentos tão ou mais danosos em relação aos que já estava sentindo.
Passadas algumas horas, o peito ainda pulsa desordenado. Sei que a raiva, a que tanto me pediram, não foi embora, mas busco nas palavras um pouco de serenidade e, talvez, alguma elaboração.
Lembro que a uma certa altura do poema Tabacaria, o poeta (Álvaro de Campos) declara
"(...) vou escrever esta história para provar que sou sublime”. Talvez seja isso que eu pretenda com esta postagem: provar que (ainda) sou sublime, a despeito de toda raiva e descontrole que a motivou.
QUEDA LIVRE
“Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão”(Guimarães Rosa – Grande Sertão: veredas)
Em geral é assim: o afeto pousa e as palavras voam. O vôo traduz a intensidade e a beleza do afeto.
Pode ser um vôo pleno, bonito toda vida ou um silencioso planar.
Um vôo liberto: asas que reconquistam um espaço perdido, ressignificam o azul do céu e o sentido do voar.
Um vôo tímido, apreensivo do próprio sentir. Ou até mesmo um vôo ousado, dando tudo de si, talvez por desconhecer o limite entre a doação e a insensatez.
O vôo em queda livre não pode ser descartado e é assustador quando sua motivação traduz uma ação auto-destrutiva em detrimento de uma atitude desafiadora.
A raiva alimenta o motor, agita as asas, estraga o vôo, embaça a visão, desloca a paisagem.
Pena não ter tido uma pane por falta de combustível. É certo que alguma coisa dentro de mim explodiu.
(VaneideDelmiro)