
Arte: Mariana Massarani
Se me perguntassem quantas vezes eu fiz aquele trajeto, não saberia responder sem utilizar palavras como “tantas”, “incontáveis”, “inúmeras”...
No entanto, naquela manhã aparentemente igual a outras, enquanto dirigia por ruas que de tão conhecidas já nem se faziam notar, era extraordinário ser surpreendida pela sensação do familiar: o movimento na casa de bolos, o burburinho dos traseuntes, a fachada da escola primária, o busto com dedo em riste, a dança das árvores ao som do vento, aquele cruzamento... Ah, aquele cruzamento, outrora detestável, dava-me então a impressão de nele poder permanecer por horas, talvez dias, sem que isso me causasse incômodo algum.
Sentia-me afortunada por não possuir nada de absolutamente novo, mas pela dádiva de experimentar o antigo, o pisado, a memória in loco, mais uma vez.
Era bom estar de volta, repatriada corpo e alma.
Lembrei, de quando em terras estrangeiras, senti inveja – não encontro outro nome – das pessoas em sua terra natal, com seus costumes, crenças, modus vivendi. Elas possuíam um código secreto, cuja senha de acesso era-me declaradamente negada.
De volta, ficou ainda mais claro: eu fora estrangeira, mas já não era mais. E em cada cena, paisagem, rosto ou palavra familiar não era eu quem ressuscitava o Brasil, mas o Brasil, o Brasil, sim, me ressuscitava.
(VaneideDelmiro)
"Pequenina como se eu fosse o saudoso poeta
E fosses a Paraíba
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria"
(Caetano Veloso, Terra)