quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

De todo quilate


"palavras me aguardam o tempo exato / pra falar / coisas minhas / talvez você nem queira ouvir" (Pra rua me levar - Ana Carolina / Totonho Villeroy)




Quem me conhece um pouco mais de perto sabe que considero a palavra de todo quilate. Mais, nenhum outro elemento diz tanto de quem sou e do que sinto. Pois a palavra sou eu própria: escrita e impressa.

De algum modo eu sempre soube disso, digo desde que descobri a palavra como canal, o ato de escrever como libertador.

Outro dia, isso veio numa clareza pungente quando ouvi a leitura de alguns textos por mim escritos, lidos por outra pessoa. A ausência de pontuação, o ritmo acelerado da leitura como se quisesse findá-la rapidamente (e por um fim a mim????) soaram como um esvaziamento de quem sou. Na rapidez com a qual fui lida, o sentido se perdeu. Pois não se tratava de me tragar por ardente desejo, antes de livrar-se e negar ali a existência de algo minimamente interessante.

Lembrei de imediato de alguns anos atrás quando me submeti a uma prova de habilidade datilográfica, onde o texto era, sob certo aspecto, secundário. Importava, antes de tudo, que as palavras fossem datilografadas correta e velozmente.

Fui ferida de mortal desprezo. Depois disso, penso mesmo que deveriam constar nos manuais de etiqueta, boas maneiras de se ler um texto. Porque por mais que a gente queira, possa e deva dele se apropriar, é preciso antes aproximar-se com certa gentileza na alma, com respeito diante do que foi escrito, independente se dotado de algum atributo literário ou simplesmente confessional.

Obviamente, todos nós temos nossas preferências e rejeições textuais (e pessoais). Apenas penso que antes de abrir as nossas gavetas e decidir sobre o que vai ou não ocupá-las, é preciso um certo despojamento das impressões primeiras. Pois um texto, em geral, se permite, sim, a releitura, mas as pessoas, bem, as pessoas às vezes não.



Observação: acréscimo (20/12/2007, madrugada)

Iniciei a postagem do dia 22/12 com um fragmento da composição "Pra rua me levar" (A. Carolina / T. Villeroy). Ouvindo "Muito romântico" (Caetano Veloso) hoje, fui me dando conta do quanto parte da letra, de algum modo ou de todos eles, também se relaciona com o que postei. Por isso o acréscimo.


"Não tenho nada com isso nem vem falar / Eu não consigo entender sua lógica / Minha palavra cantada pode espantar / E a seus ouvidos parecer exótica / Mas acontece que eu não posso me deixar / Levar por um papo que já não deu / Acho que nada restou pra guardar / Do muito ou pouco que houve entre você e eu / Nenhuma força virá me fazer calar / Faço no tempo soar minha sílaba / Canto somente o que pede pra se cantar / Sou o que soa eu não douro a pílula" (Muito romântico - Caetano Veloso)

Um comentário:

Mariana disse...

EStá tão bom aqui...com todo meu respeito e gentileza me aproximo...:)Um beijo e ótimo novo ano.