sábado, 9 de agosto de 2008

Ladra












(Arte: Mariana Massarani)



Sábado, a rotina se repete. As sensações também. Enquanto as obrigações se amontoavam por toda a casa, eu tentava inutilmente (re)agir propondo-me coisas de aparência banal, mas em essência vital...

Quem sabe alguns instantes em frente ao mar, olhando o horizonte até perder-se (ou mesmo achar-se) no azul do olhar.

Pra alma endurecida, um pôr-de-sol ao som do Bolero de Ravel bem podia funcionar.

Um caminhar errante, descompromissado, traria a impressão de uma trégua do tempo, que finalmente decidiu também relaxar.

Abraço festivo de sobrinho é antídoto certo pra algumas dores aliviar. Analgésico de poder curativo similar só mesmo um ombro Amigo tem a ofertar.

Seguir de carro, de ônibus, de trem, a pé pra algum lugar onde se deseje realmente estar.

Pizza, à noite, com a família não se deve dispensar. Para além das trocas calóricas, estão as afetivas.

Sentir o cheiro de quem teu coração faz pulsar. E pulsar.

Ouvir a voz, a única possível, capaz de embalar teu sono mais improvável, mesmo se no meio da música desafinar.

(...)

Clarice Lispector iniciou uma de suas crônicas declarando: “acho que o sábado é a rosa da semana...” É poético, Clarice, mas há um tempo não consigo cultivar jardins.

Admitir, enfim, que o sábado em suas possibilidades de florescimento não é subtraído de mim pelo cotidiano de afazeres, mas eu sim, eu mesma, ladra que sou, o tenho roubado de mim.

(VaneideDelmiro)




Lispector, Clarice. Sábado. In: A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

3 comentários:

Mari Monici disse...

Pois devolva já este sábado! Antes que eu faça um boletim de ocorrência por você! Adorei este relógio no blog...mas ele me apressa a ler logo, já que etsou no trabalho...e gosto mesmo é de perder a hora aqui e me achar!
beijo e otima semana

vanusa disse...

Ei vc tem razão pizza com a familia nao se deve dispensar.bj te adoro

Camilla Tebet disse...

E o pior roubo é aquele que sofremos de nós mesmas. Fica mais difícil a negociação do que deixar levar e do que se pode morrer por... não é? Não roube não.. permita-se, porque pa te roubar tem sempre o outro.
Adorei o texto.
Bjos