terça-feira, 13 de maio de 2008

Carta a João Pedro

"Mas eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo de que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira - só meu companheiro amigo desconhecido.
(...)
Ele, o menino, era dessemelhante, já disse, não dava minúcia de pessoa outra nenhuma."

(Grande Sertão: veredas - João Guimarães Rosa)




João,

Sei que você irá, ao longo da tua existência, encontrar vários sentidos pra essa passagem tão singular aqui, nesse planeta chamado Terra. De qualquer modo, e sem querer me antecipar, quero muito que saiba que um desses sentidos é a tua importância em minha vida: a alegria que sinto quando fecho os olhos e vejo a tua imagem ou, simplesmente, pronuncio o teu nome em silêncio.

Essa alegria, João, não é menor quando de teu chamamento – “tia!”: a onda beijando macio a areia, a geleira rendendo-se a um único raio de sol.

Eu sempre pergunto o porquê de te amar tanto e você sempre diz não saber. Além de tudo, João, você é modesto.

É bom que haja entre nós laços familiares, mas se não houvesse eu te amaria da mesma forma. Não amaria maior porque maior não haveria.

Você é um menino muito, muito especial. Inteligente, criativo, gentil e de grande sensibilidade. E tudo isso tá escrito no teu rosto, nos teus gestos doces e atenciosos.

Guardo na memória várias situações nas quais estivemos juntos. Gosto de lembrar você.

A experiência de te ver crescendo é maravilhosa e é redimensionada ao perceber que o nosso afeto segue nessa mesma direção.

Talvez não precise te falar. Você já deve ter percebido o quanto torço por sua felicidade. Que sua alma nunca seja fisgada por nenhuma gaiola ou mordaça, palavras que em nada combinam com você. Que você trilhe todos os caminhos de seu coração, sem esquecer que, além do prazer e da liberdade, nossa trajetória ganha sentido também na responsabilidade de nossos passos.

Estarei sempre contigo. Um abraço carinhoso, dessa que, em matéria de você, não sabe fazer outra coisa a não ser te amar.

Afetuosamente,

Tia Neide




João é o meu sobrinho do meio. Hoje é o dia de seu aniversário e há 10 anos a sua centelha brilha iluminando a minha vida. Tenho certeza de que a de muitas outras pessoas também.

2 comentários:

Vanusa disse...

nossa to me acabando de chorar, nunca vi tamanha declaração como essa, ele realmente é um menino ultra especial, nao so por ele ser inteligente mas tambem pelo imensidao das coisas que ele faz e fala. adorei F. sei que chegara o grande dia de vc publicar tao lindos poemas..beijos deus te proteja sempre...

Cristiane disse...

Também tenho uma sobrinha e o amor que sinto por ela é tão grande como este aí, que você escreve lindamente neste carta.