Meados do ano. A essa altura, as palavras já deveriam ter acordado, lavado o rosto, tomado café, aberto suas asas e alçado vôo. Mas, contrariando toda previsão, não vejo sinal delas em parte alguma.
Será preguiça, cansaço ou temor o que as fazem permanecer tanto tempo recolhidas em plena manhã de sol e tendo, diante de si, um azul de céu provocantíssimo?
Estarão doentes, as palavras? Não, uma simples indisposição não as afetaria a tal ponto. Acaso padecerão de anomia, disartria, mutismo?
Ou teriam sido acometidas por algum infame acidente? De repente um bater de asas desajeitado, um vôo rasante, uma aterrissagem forçada... A queda. Depois, o silêncio.
Vítimas de seqüestro? Submetidas ao horror dos campos de extermínio? Perdidas em algum ponto do caminho, sem saber como voltar? Ou, tão somente, atendendo a necessidade de recolhimento?
Em que morada aportam as palavras quando silenciam? Como resgatá-las desse Lo-Debar? Que chamamento faremos para despertá-las desse inquietante silêncio? Afinal, que destino daremos a tudo que não conseguimos alcançar e responder na ausência delas?
(VaneideDelmiro)
A cidade era um deserto
O jovem era homem velho
E quem passava ao seu lado
Jamais conseguiria entender
(Nenhum de Nós, Deserto)