domingo, 6 de março de 2011

Mais Alegre a Mais

"Minguilim, Minguilim, vou ensinar o que agorinha sei demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que aconteça, acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro."
João Guimaraes Rosa, em Campo Geral


"O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza."
João Guimaraes Rosa, em Grande Sertão: veredas

sábado, 5 de fevereiro de 2011

ANDARILHO


À Airton, in memorian

Existirmos: a que será que se destina?
(Caetano Veloso)


Da última vez que nos vimos, vinha trazido por uma ambulância do hospital geral. Peito arfante, olhar aflito, maltrapilho, transpirava angustia por todos os poros. "Eu quero um remédio, doutora, preciso de um remédio..." Oferecemos água e escuta. Não era suficiente.

Insistemente continuava pedindo o que julgava lhe acalmar. Ele não nos comovia com o seu pedido urgente, mas com a certeza de que atendê-lo, quando muito, apenas lhe traria um efeito apaziguador temporário, e de que todo o nosso esforço de acolhimento esbarrava no limite do fazer humano, por maior dedicação que nos movesse. Era claro: aquele homem alto, com voz de trovão, nos escapava entre os dedos.

Afinado, lembro muitas vezes de ouvi-lo cantar "Só vou gostar de quem gosta de mim", cujo primeiro verso afirma: "de hoje em diante vou modificar o meu modo de vida..." É, Airton, algo se modificou... E como diz aquela outra canção "apenas a matéria vida era tão fina..."

Talvez nunca consigamos responder se suas andanças expressavam uma busca louca por algum sentindo na vida ou se eram, tão somente, uma fuga de si mesmo. O fato é que perguntas e respostas já não têm nenhuma importância.

Que de agora em diante você pise suavemente nas nuvens do céu. Algo me dá a certeza de que aquilo que você tanto procurava como andarilho, nas ruas de Cabedelo e de João Pessoa, e o mais que sequer ousou sonhar, encontrará definitivamente nos braços amorosos de Deus.

(VaneideDelmiro)


"Vinde a mim, todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei" (Mateus 11:28)

domingo, 30 de janeiro de 2011

NADA A DECLARAR


Fez-me tantas perguntas. Uma sequer respondi. Mas sorri com os olhos a paz impossível de palavras.
Na lavoura do silêncio, brotarão cumplicidades?

(VaneideDelmiro)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Prazo de Validade Vencido


Adiar, adiar, adiar: eis o famigerado verbo do presente...

(VaneideDelmiro)




Guardei na geladeira a edição especial de Danette Ovomaltine para saboreá-la em uma dessas noites quentes de dezembro. Parecia perfeito. E seria, não fosse meu esquecimento. Quando lembrei, o susto: o rótulo anunciava o prazo de validade vencido.

Enquanto me livrava do conteúdo e da embalagem - e tentava não me frustrar mais com um novo sabor adiado / desperdiçado - não pude deixar de pensar nos movimentos que, amiúde, fazemos ao longo da vida. Reservamos a melhor roupa, o melhor perfume, a melhor louça, o melhor afeto, a melhor palavra, aguardando ocasiões especiais.

Às vezes elas demoram a chegar. Noutras, sequer nos damos conta de que elas estão acontecendo a todo instante, bem ao nosso lado, a um palmo do nosso nariz.

A bem da verdade estamos todos imersos em uma grande ocasião especial chamada VIDA, cuja edição é única e, no entanto, continuamos esperando, esperando, esperando sentir um sabor que diária e preciosamente nos é oferecido.

Agora que a proximidade do ano novo acena com seus apelos de renovação, um desejo consumista me invade: sorver a vida em 2011, em cada grão, gota, partícula. Sem desperdício.

Esse é também o meu desejo para os leitores - e os não leitores - deste Blog.


(VaneideDelmiro)



A vida é um dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor de nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se fosse me dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...

(Mário Quintana)






sábado, 6 de novembro de 2010

Coisa natural...

Quando a febre chega, agrada-me como coisa natural...
Fernando Pessoa
Ser um ser permissível a si mesmo é a glória de existir
Clarice Lispector, em Um Sopro de Vida

Quando a temperatura aumentou, percebi que tinha febre de desejos... Como não queria curar-me, então tratei de sentir. Na minha prostração erguia-se o mais imperioso dos desejos: viver. Um único medo, porém, me aquietava a alma: ao ceder a febre, o que restaria?

VaneideDelmiro

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Revelação


Era um lugar alto e frio. Ventava terrivelmente. Pressenti o perigo. Vi um enxame de pensamentos avançando em minha direção, todos enlouquecidos.
No meio do nada, um ataque frontal, impiedoso. Seria mortal? Sucediam-se palavras e sentimentos desgovernadamente, a confundir-me. De início, tentei domesticá-los, mas o esforço logo resultou inútil.
Esquivei-me o quanto pude. Fugi não o fiz. Talvez por fraqueza, e não por coragem.
Lembro das muitas tentativas de proteger o corpo, com a intenção de preservar a alma. Senti um açoite imaterial com a força e a ira de mil chicotes.
Não havia grito, porque naquela agonia silenciosa misteriosamente eu sabia não estar só. Algo infinitamente maior me sustentava. Seu nome É Deus.

(VaneideDelmiro)



Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando passares pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti (Isaías 43:2)

sábado, 4 de setembro de 2010

Pingo




Chamava-se Pingo
E nos deu um oceano de alegria.

(VaneideDelmiro)



Negro, com os olhos em brasa
Bom, fiel e brincalhão
Era a alegria da casa
O corajoso Plutão
Fortíssimo, ágil no salto
Era o terrror dos caminhos
E duas vezes mais alto
Do que o seu dono, Carlinhos
Jamais a casa chegara
Nem a sombra de um ladrão
Pois fazia medo a cara
Do destemido Plutão
Dormia durante o dia
Mas quando a noite chegada
Junto à porta se estendia
Montando guarda ficava
Porém Carlinhos
Brincando com ele
Às tontas no chão
Nunca saia chorando
Mordido pelo Plutão
Plutão velava-lhe o sono
Seguia-o quando acordado
O seu pequenino dono
Era todo o seu cuidado
(...)
Foram um dia à procura dele
E esticado no chão,
Junto a uma sepultura
Acharam morto o Plutão
(Olavo Bilac, Plutão)